Dia Mundial de Teatro
Vamos fazer espectáculo no Dia Mundial de Teatro.Como devem saber nesse dia a entrada é livre A Barraca abrirá as duas salas ao publico.Com Dona Maria a Louca e O Fantasma do Chico Morto Faz-se o espectáculo e lê-se a mensagem que este ano é do MalKovitch e é interessante e leve.E festeja-se uma arte antiga que todas as noites e dias, em milhões de espaços por todo o mundo une pessoas num mesmo sorriso,numa mesma lágrima,numa mesma aspiração ,reinventando-se sempre,sabendo tirar leite das pedras,por todos os séculos dos séculos... Informa-te sobre o horário e anda daí.
segunda-feira, 26 de março de 2012
quinta-feira, 8 de março de 2012
Digressões
Estão já agendados os seguintes espectáculos:
3 de Março às 21h30, Cine Teatro Municipal de Castro Verde
24 de Março às 22h00, Fórum Cultural José Manuel Figueiredo da Moita
31 Março às 21h30, Cineteatro de Alcobaça
4 de Abril às 21h 30 Teatro Municipal de Bragança
6 de Abril às 21h 30 Teatro Municipal de Vila Real
26 Abril às 21h30, Festival Folia da Jangada Teatro em Lousada
Ainda não confirmados:
Benavente, Lamego, Aveiro, Guimarães, Gois, Famalicão, Cascais, Abrantes, Figueira da Foz, Terceira, Florianópolis (Brasil)
3 de Março às 21h30, Cine Teatro Municipal de Castro Verde
24 de Março às 22h00, Fórum Cultural José Manuel Figueiredo da Moita
31 Março às 21h30, Cineteatro de Alcobaça
4 de Abril às 21h 30 Teatro Municipal de Bragança
6 de Abril às 21h 30 Teatro Municipal de Vila Real
26 Abril às 21h30, Festival Folia da Jangada Teatro em Lousada
Ainda não confirmados:
Benavente, Lamego, Aveiro, Guimarães, Gois, Famalicão, Cascais, Abrantes, Figueira da Foz, Terceira, Florianópolis (Brasil)
domingo, 4 de março de 2012
D. Maria em Castro Verde
Ontem estivemos a representar em Castro Verde. O Teatro está muito bem arranjado. Sem luxos nem excessos serve com bom gosto e uma optima teia as necessidades da terra. A sala tem trezentos e tal lugares e estava quase cheio.
O espectáculo correu bem, apesar da luz que reflectida num chão de madeira clara, criava à peça um ambiente muito mais leve do que eu estou habituada e aqui e além me perturbava. É extraordinário como um pormenor aprentemente pequeno pode ser tão importante. Claro que não se sentiu nada da minha perturbação. Nem o público nem os colegas. Mas eu senti a diferença. No fim de enormes aplausos e ficámos em debate com o público durante cerca de uma hora e meia. O público de Castro Verde está diferente. Continua a haver muito público popular, mas a literacia aumentou. E a quantidade de gente culta também. Gente que quer falar. Que sabe falar. Não sei se tem a ver com a existência de uma universidade sénior muito activa. Gostei imenso de lá estar. A peça tem cerca de uma hora e quarenta minutos, é um monólogo, embora em cena esteja sempre uma segunda figura muito viva e divertida, e ninguém deu sinal de enfado ou cansaço. Para mim isto é importante. Partilho inteiramente da opinião de Peter Brook quando diz que o maior inimigo do Teatro é o aborrecimento.
O espectáculo correu bem, apesar da luz que reflectida num chão de madeira clara, criava à peça um ambiente muito mais leve do que eu estou habituada e aqui e além me perturbava. É extraordinário como um pormenor aprentemente pequeno pode ser tão importante. Claro que não se sentiu nada da minha perturbação. Nem o público nem os colegas. Mas eu senti a diferença. No fim de enormes aplausos e ficámos em debate com o público durante cerca de uma hora e meia. O público de Castro Verde está diferente. Continua a haver muito público popular, mas a literacia aumentou. E a quantidade de gente culta também. Gente que quer falar. Que sabe falar. Não sei se tem a ver com a existência de uma universidade sénior muito activa. Gostei imenso de lá estar. A peça tem cerca de uma hora e quarenta minutos, é um monólogo, embora em cena esteja sempre uma segunda figura muito viva e divertida, e ninguém deu sinal de enfado ou cansaço. Para mim isto é importante. Partilho inteiramente da opinião de Peter Brook quando diz que o maior inimigo do Teatro é o aborrecimento.
sábado, 3 de março de 2012
Tierra de Trampas (TdT): Primer mandamiento: ¡No aburrirás al lector!
Tierra de Trampas (TdT): Primer mandamiento: ¡No aburrirás al lector!: Francisco Garzón Céspedes entrevista a Fernando Sorrentino. Extractos. Francisco Garzón Céspedes: ¿Cuál es su personal definició...
sexta-feira, 2 de março de 2012
A Santa de Roca
Uma santa despida do manto, inacabada ou desfeita, translúcida, a mostrar-nos os seus vazios cheios de significados e significâncias. Uma santa de roca. Maria do Céu Guerra e José Costa Reis criaram esteticamente uma D. Maria, a Louca, inspirada nessa figura simples, um esboço de ser. E D. Maria, essa Maria que ora assistimos, ou nos assiste ela, nunca esteve tão bem materializada. Tomei conhecimento deste particular quando cheguei a Lisboa em julho do ano passado para acompanhar os últimos ensaios e a semana de estréia no Teatro A Barraca e me surpreendi. Isto porque, dois anos antes, de passagem por Lisboa a caminho dos Açores, caminhando por uma das lindas vielas de Alfama, me deparei com duas santas de roca em uma vitrine de um antiquário. Pensei imediatamente: são elas a D. Maria! Fotografei e enviei à atriz Berna Sant’Anna (que viveu a personagem na montagem de estréia, em Florianópolis), dizendo ter encontrado D. Maria pelas ruas de Lisboa. Nunca havia comentado isto com a Maria do Céu, com o Costa Reis ou qualquer outro componente d’A Barraca. Quedamo-nos encantados Demos créditos à coincidência, por escrúpulos, mas nos deliciamos mesmos imaginando ser obra dos mistérios que envolvem essas santas, essas rainhas, essas mulheres, que, despidas do manto do mito que as envolve, se nos mostram todas, mesmo que aos pedaços.
O Regresso de Maria a Louca
Ontem fiz espectáculo. Estava bastante gente e foi delicioso voltar àquelas palavras e emoções, àquele novelo de sentimentos e memórias e terrores e vitalidade e cansaço. Estava a filha de um Actor há muito já desaparecido: Alvaro Benamor. No fim ela estava emocionada e deu muitos bravos e aplaudiu muito. Esperou por mim no hall do Teatro e abraçou-me. E eu pensava durante aquele abraço no efémro da nossa arte. Naquela sala pouca gente se lembraria do Alvaro Benamor. Era lindo, fino e dava brilho às cenas em que estava. E daquele brilho, naquele momento só eu e a filha é que sabiamos. Naquele fogo, que nós lembravamos e que o fez arder, ninguém daquela sala se aqueceu. A ultima vez que o vi em cena foi a fazer A Dansa da Morte de Strindberg com Augusto Figueiredo (maravilhoso actor) e Carmen Dolores. Espectáculo optimo, dirigido por Jorge Listopad na Casa da Comédia. Só quando desaparece a ultima pessoa que ainda estremece com a emoção que lhe provocámos, é que o actor de Teatro realmente morre. Ontem duas pessoas, num abraço, fizeram voltar a cena o Alvaro Benamor.
Também estavam o meu querido Zeca Medeiros e a Sãozinha sua mulher. Tivemos das mais interessantes conversas sobre o espectáculo de toda a carreira da peça. Como eles são sensiveis, santo deus. Quando tiver tempo falo nisso tudo
Também estavam o meu querido Zeca Medeiros e a Sãozinha sua mulher. Tivemos das mais interessantes conversas sobre o espectáculo de toda a carreira da peça. Como eles são sensiveis, santo deus. Quando tiver tempo falo nisso tudo
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
A Criação e a Criatura
Quando escrevi “Dona Maria, a Louca”, em 1999, já tinha muito presente a imagem, a personalidade e o talento de uma grande e querida atriz, de recursos diversos e de uma generosidade ímpar. Fui mostrando à minha amiga Berna Sant'Anna o texto, à medida que ia escrevendo, três, quatro páginas por vez, ouvindo-a dizê-lo, sentindo cada entonação, cada acento, cada pausa, as variações da respiração, os silêncios. E lá se foram mais de trinta páginas e um mar imenso de sensações ditas ou suscitadas em um português nem bem de Portugal, nem bem do Brasil, talvez um português “de um tempo límbico”, como definiu a minha amiga de além-mar, Ana Luísa Riquito em um artigo que me enviou. E, confesso, esta escrita dita como quase-oitocentista, impregnada de barroquismos, não foi estudada e decidida metodicamente. Ela mesma se impôs de tal maneira, que mesmo se quisesse, não conseguiria voltar atrás. O lirismo, “as aliterações, os jogos de linguagem, a “rima interna” (como descreve a Ana Riquito), fluíram com a minha condescendência e com o apoio da Ivonete da Silva Souza, que me facilitou o acesso às informações históricas e me repassava antes de todos as primeiras impressões. Mas, saliento, há quem considere estas características um defeito. Considerações que respeito. Então, sob a direção impecável de José Pio Borges e do gênio de Sylvio Mantovani na criação plástica do espetáculo, a “Dona Maria, a Louca” de Berna Sant’Anna se colocou majestosa no gosto e na memória do público catarinense.Anos depois, D. Maria retornou na pele da atriz Marisa Hipólito, em montagem dirigida por Jairo Maciel na cidade de São Paulo. A experiência de ver D. Maria interpretada por uma atriz cega foi instigante. A construção (ou desconstrução) da personagem se apoiava em outras bases, calcada em outras referências, mas ela estava ali, inteira. Marisa emprestou outros olhares à D. Maria.Em 2011, foi a vez de fazer o caminho inverso ao de D. Maria, de cruzar o Atlântico para encontrá-la em casa. Foi uma jornada que se iniciou em 2006, quando recebi o telefonema da Maria do Céu Guerra tecendo comentários e respeito do texto e informando da sua intenção de levá-lo ao palco. Era a voz de D. Maria do outro lado da linha! O texto chegou-lhe às mãos por intermédio do seu amigo, o ator Santos Manuel, que o recebera no Brasil do diretor Celso Nunes. Foram então cinco anos de maturação. Pensei: vai estar tudo pronto, resolvido, pois se trata de uma atriz com uma experiência imensa de palco e de vida. Feliz engano. Ao chegar a Lisboa dei com uma mulher tão múltipla, que transpirava tanta jovialidade e ao mesmo tempo tanta maturidade. Tudo estava vivo, pulsante, fazendo-se e refazendo-se. A insegurança que ela me afirmou ter ao me ver assistindo aos últimos ensaios, só poderia ser a prova de que aquela atriz ainda encarava o seu ofício com o mesmo frescor dos primeiros anos, mas que ao pisar o espaço cênico nos arrebatava com a força avassaladora da criação. (Nas fotos, Berna Santana – 1999)
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Regresso de D.Maria
Na quarta-feira dia 29 regresso ao palco com a minha adorável Maria.Tem-me feito falta o seu convivio.Há dias que sem ela o meu desanimo e a falta do Teatro a que pouco vou porque nem sempre me apetece, levava-me ao mais fundo da provincia alentejana, a meter-me ali, como o meu cão suicida pronto a desistir.
A representação de um monólogo a que damos espaço a toda a nossa capacidade de aprofundar o que é um ser humano incandescente, salva-nos. A Dona Maria de quem estudei a História, a lenda e os relatórios clinicos tem feito mais por mim do que eu por ela. É verdade que o publico sai dali perplexo e surprendido com a força,as contradições, a inteligência e o medo daquela mulher especial que, nem sendo raínha se livrou do anátema de ser mulher no tempo em que viveu. Por isso sinto alguma reciprocidade no que fazemos uma pela outra. Eu mostro-a ao publico. Aos seus portugueses. E ela liberta-me do meu silêncio. A dificuldade que sempre tive de perder tempo com os meus sentimentos,com a análise aprofundada de cada momento de mim, coisas beras que me vieram da vivencia e educação no colégio de freiras e também do desejo permanente de fazer o contrário de uma mãe transparente e confessional, só é resolvida em cena e através da riqueza emocional das figuras por quem me tenho apaixonado. São elas que falam por mim em cada momento, no único lugar onde não se pode mentir - O Palco.
A representação de um monólogo a que damos espaço a toda a nossa capacidade de aprofundar o que é um ser humano incandescente, salva-nos. A Dona Maria de quem estudei a História, a lenda e os relatórios clinicos tem feito mais por mim do que eu por ela. É verdade que o publico sai dali perplexo e surprendido com a força,as contradições, a inteligência e o medo daquela mulher especial que, nem sendo raínha se livrou do anátema de ser mulher no tempo em que viveu. Por isso sinto alguma reciprocidade no que fazemos uma pela outra. Eu mostro-a ao publico. Aos seus portugueses. E ela liberta-me do meu silêncio. A dificuldade que sempre tive de perder tempo com os meus sentimentos,com a análise aprofundada de cada momento de mim, coisas beras que me vieram da vivencia e educação no colégio de freiras e também do desejo permanente de fazer o contrário de uma mãe transparente e confessional, só é resolvida em cena e através da riqueza emocional das figuras por quem me tenho apaixonado. São elas que falam por mim em cada momento, no único lugar onde não se pode mentir - O Palco.
domingo, 19 de fevereiro de 2012
Maria I de Portugal
Por Fernando Rebouças
Maria Francisca Isabel Josefa Antônia Gertrudes Rita Joana, a Maria I de Portugal, nasceu em Lisboa em 17 de dezembro de 1734. Faleceu em 20 de março de 1816, na cidade do Rio de Janeiro; era filha do rei José I e de Dona Mariana Vitória.
Ocupou o trono português de 24 de março de 1777 a 20 de março de 1816. Era chamada de “A Piedosa” por ser uma pessoa de profunda religiosidade. No Brasil, ficou conhecida como Dona Maria, a Louca, devido a sua doença mental que veio a tona após o falecimento de seu primeiro filho.
Casou-se com seu tio Dom Pedro III, assumiu o trono num período conturbado para a Europa, tempos de Revolução Francesa e de novas visões políticas no continente. Ao ocupar o trono, reverteu projetos anteriores: libertou diversos presos e jesuítas (entre eles o bispo de Coimbra, D. Miguel da Anunciação), fundou a Academia Real de Ciências de Lisboa e a Casa da Pia para acolhimento de crianças abandonadas.
Também fundou a Biblioteca Pública de Lisboa, atual Biblioteca Nacional portuguesa. Foi a primeira rainha reinante de Portugal, foi responsável pelo exílio da corte de Marquês de Pombal e pelo período do país conhecido como Viradeira. Concedeu asilo a aristocratas franceses exilados da Revolução Francesa.
Assinou tratado de comércio com a Rússia em 1789 e patrocinou diversas missões culturais e científicas nas colônias portuguesas. Em 5 de janeiro de 1785, promulgou alvará de proibição à atividade industrial no Brasil.
Em virtude de sua doença mental, foi substituída pelo seu filho, Dom João VI em 10 de fevereiro de 1792. Foi tratada por um psiquiatra inglês, Dr. Willis, médico real Jorge III. Piorou depois da morte de seu marido D. Pedro III e filho, o príncipe herdeiro José, falecido em 1788, aos 26 anos no Rio de janeiro.
Fontes:
http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/DoMaria1.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_I_de_Portugal
Data de publicação: 08/12
Maria Francisca Isabel Josefa Antônia Gertrudes Rita Joana, a Maria I de Portugal, nasceu em Lisboa em 17 de dezembro de 1734. Faleceu em 20 de março de 1816, na cidade do Rio de Janeiro; era filha do rei José I e de Dona Mariana Vitória.
Ocupou o trono português de 24 de março de 1777 a 20 de março de 1816. Era chamada de “A Piedosa” por ser uma pessoa de profunda religiosidade. No Brasil, ficou conhecida como Dona Maria, a Louca, devido a sua doença mental que veio a tona após o falecimento de seu primeiro filho.
Casou-se com seu tio Dom Pedro III, assumiu o trono num período conturbado para a Europa, tempos de Revolução Francesa e de novas visões políticas no continente. Ao ocupar o trono, reverteu projetos anteriores: libertou diversos presos e jesuítas (entre eles o bispo de Coimbra, D. Miguel da Anunciação), fundou a Academia Real de Ciências de Lisboa e a Casa da Pia para acolhimento de crianças abandonadas.
Também fundou a Biblioteca Pública de Lisboa, atual Biblioteca Nacional portuguesa. Foi a primeira rainha reinante de Portugal, foi responsável pelo exílio da corte de Marquês de Pombal e pelo período do país conhecido como Viradeira. Concedeu asilo a aristocratas franceses exilados da Revolução Francesa.
Assinou tratado de comércio com a Rússia em 1789 e patrocinou diversas missões culturais e científicas nas colônias portuguesas. Em 5 de janeiro de 1785, promulgou alvará de proibição à atividade industrial no Brasil.
Em virtude de sua doença mental, foi substituída pelo seu filho, Dom João VI em 10 de fevereiro de 1792. Foi tratada por um psiquiatra inglês, Dr. Willis, médico real Jorge III. Piorou depois da morte de seu marido D. Pedro III e filho, o príncipe herdeiro José, falecido em 1788, aos 26 anos no Rio de janeiro.
Fontes:
http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/DoMaria1.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_I_de_Portugal
Data de publicação: 08/12
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
D. Maria A Louca
Artigo de Ana Luísa Riquito (Lisboa)
D. Maria, a Louca, é a peça do dramaturgo brasileiro Antônio Cunha que está em cena no Teatro “A Barraca” e que recomendo.
A acção decorre em 1807, a bordo da nau Príncipe Real que, numa ofegante travessia atlântica,haveria de garantir a fuga da família real às forças napoleónicas e a sobrevivência da Coroa. É uma D. Maria forçada a ser intrépida, temente a Deus e acossada pela geopolítica europeia tanto quanto pela sua insânia, aquela que o seu filho, futuro D. João VI, obrigaria a esperar, antes do desembarque, dois dias e duas noites, sobre as águas da baía de Guanabara. É durante esse tempo límbico e nesse território marítimo, flutuante e instável, que D. Maria se entrega a um exercício de memória, examinando os contornos da sua vida passada e, antecipando, num lampejo de lucidez, a solução da peça conhecida desde a primeira fala: “Brasil! [...] Sei que morrerei em teu ventre seco.”
A partir daqui, o monólogo constitui uma meditação interior, que nos revela uma dupla existência, entre o impudor que a verdadeira solidão autoriza e o sóbrio sentido do dever que o exercício, por direito divino, do mais alto magistério público, então exigia. É D. Maria I e é simplesmente Maria quem nos revela o texto da peça e, entre esses dois pólos, são todas as Marias que o nosso imaginário pressente terem coexistido naquela Rainha de Portugal, a primeira do sexo feminino de um país em que não vigorava a Lei Sálica.
Desde a primeira cena e ao longo de toda a peça,D. Maria surge-nos aterrorizada pela tremenda força telúrica que sabe ser a essência do Brasil. Surge-nos também alucinada, invectivando Bonaparte por entre as lancinantes enxaquecas com que “o Diabo lhe comprime o crânio”. Esta exaltação nervosa é tão mais impressionante quanto a fragilidade da velha senhora é acentuada, nesta fase, pelo seu traje: uma combinação interior despojada, muito simples, translúcida, como se a sua alma sensível estivesse à mercê de ser facilmente trespassada por todas as crueldades do mundo. Só naquelas cenas em que a Maria-pessoa cede o protagonismo a D. Maria I-persona é que Maria do Céu Guerra haverá de envergar o manto real, projectando a voz no exercício do poder, decidi ndo e oficiando por decreto, sem que, ainda assim, o múnus que lhe fora confiado serevel e menos solitário ou dilacerante.
O monólogo é presenciado por uma aia negra, anã, D. Joaninha, encarnada pelo actor Adérito Lopes, a quem D. Maria se dirige muito intimamente, em confidência, várias vezes de modo maternal e carinhoso.Esta contracena encarnada por uma figura muda, hierática, que se movimenta sobre uma cadeira rolante e, ao contrário da monarca, aparece trajada com uma vistosa indumentária de dama da corte, confronta, ao mesmo tempo que conforta,o desamparo de D. Maria. Por vezes, parece dar-se uma inversão de papéis, como quando D. Joaninha, em pose majestática, sentada na sua cadeira como num trono,faz um sinal de cabeça para que seja a própria rainha a apanhar do chão a mantilha negra do luto de D. José. Em outras ocasiões, ela é simplesmente relegada à sua condição de súbdita, - para mais, de outra raça, - que cumpre as ordens para trazer o urinol à Rainha ou para lhe calçar os escarpins.
Maria do Céu Guerra, representando uma rainha que já estava “oficialmente louca” há 16 anos, alterna um olhar esgazeado e um registo de voz que é quase um “uivo de dor” com apontamentos de conversa mais prosaicos – “A bexiga caiu-me primeiro, o reino depois” - num texto intrinsecamente poético, muitas vezes com um tom aforístico definitivo, e de uma cadência rítmica quase-oitocentista.As metáforas, - “Brasil: garganta de hálito escaldante e olhos de sedição” - as aliterações, os jogos de linguagem, a “rima interna” - “Não me tenhas pena.Não me tenhas presa.”, “Os pensamentos que guardei são, para os simples,segredos. Porém, para mim, são degredos, distâncias de não suportar.” – imprimem a esta tragédia beleza, nobilitam-na, induzem a empatia e a compaixão do espectador.
A vigia redonda da embarcação, - na qual se projecta, em tons cinza, ora um mar remanso so sobrevoado por um pássaro que voga, ora uma boneca, evocando a Maria da infância, - com a sua omnipresença central no cenário, funciona como um “óculo” que, em permanência, está de atalaia à Rainha, num escrutínio constante que a não deixa ser “privada”, descansar, ser leve, pueril, irresponsável. Funciona também como um portal, pelo qual o pensamento se evade e a imaginação se liberta, já que “a loucura não é uma porta que se nos fecha, mas muitas janelas que se nos abrem, só que todas ao mesmo tempo”, diz a protagonista.
É neste cenário que o espectador vai conhecendo:a Maria-filha, devota de seu pai, a Maria-mulher num mundo de homens que a desautorizam com o olhar, a Maria-jovem, secretamente apaixonada, que casa contrariada e por “dever de ofício”, a Maria-mãe, extremosa, pungida pela morte do seu idolatrado primogénito, a Maria-sogra... E também: a D. Maria-beata, a D. Maria-aristocrata com consciência de classe, a D. Maria-clemente, a D.Maria-impotente, perante a supremacia política viril dos conselheiros da Corte...E em todos os registos, Maria do Céu Guerra é magistral: juvenil e cheia de cândida admiração pelo pai, ansiosa, fogosa e revoltada quanto ao seu amor proibido, embevecida pela maternidade, desconfiada quanto a Carlota Joaquina e irredutível na defesa da monarquia.
Com efeito, nesta peça, vemos desfilar uma época em que, porventura mais do que em qualquer outra, na Europa, se digladiavam concepções políticas sobre a organização social extremadas: entre os ideais revolucionários de igualdade e a defesa dos privilégios de casta centenários. O espectador pode, assim, recordar “ao vivo”, episódios marcantes da história de Portugal: a demissão e o exílio da Corte do Marquês de Pombal, a libertação dos presos políticos, a reabilitação dos Távoras, todos símbolos de um período inaugurado pelo Reinado de D. Maria que ficou conhecido como “A Viradeira”, num cognome de conotação ambígua, - ou mesmo, negativa, - por ter correspondido também a uma renovada deferência para com o obscurantismo da Igreja.
Mas é no episódio da execução de Tiradentes, na sequência da revolta da “Inconfidência Mineira”, que a loucura lúcida de que D.Maria vai fazendo prova ao longo de toda a peça atinge o seu paroxismo. A maneira como D. Maria constrói Tiradentes, a forma como o idealiza, tentando encontrar-lhe atenuantes para o crime que lhe valerá a morte, fixa definitivamente aos nossos olhos o terno retrato de uma mulher desvalida,terrena, que compreende os sentimentos e as pessoas, para além do exercício do dever na esfera de governação.
Antônio Cunha imagina, num momento muito emotivo, uma D. Maria que vê em Tiradentes uma reencarnação sucessiva das três figuras que a monarca mais amou e por cuja morte se sente responsável: o jovem Távora, primeiro, que “amou uma Princesa que só podia amá-lo em sonhos” e para ele foi “um triste túmulo”, o rei D. José, seu pai, depois, “morto por real vontade de deixar à filha um Reino”, e o seu filho varão, José, por fim, “muito amado, belo e voluntarioso, a quem levou a peste imunda” que à Rainha estava destinada. Tiradentes acabará por ser a quarta morte que pesará até ao fim da vida na atormentada consciência da Rainha, ainda que perante os seus ministros esta tivesse defendido uma pena mais branda para demonstrar que a piedade é um atributo de todos os que estão convictos da sua realeza.
A propósito de D. Maria I, Mário Domingues[1]haveria de escrever que “a sua débil mão de mulher empunhou o ceptro num dos momentos mais difíceis da história nacional.” E se assim foi, talvez esta grandiosa personagem trágica da nossa história comum com o Brasil, tenha,enfim, encontrado nesta interpretação de Maria do Céu Guerra da peça de Antônio Cunha, o delicado e justo “memorial” que a criação artística e, designadamente a dramaturgia, ainda não lhe dedicara.
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